
Passam 7 dias e o assunto deve morrer, sem que, no entanto, deixe de ficar registado.
Não é cinema mas este blog foi dando, em ocasiões especiais, um pulo ao outro azul (que não o céu) que interessa.
Com a devida referência ao fórum "Portal dos Dragões" (de que, infelizmente, não faço parte) e em especial a 2 users ("DrGero" pelo texto e "finz" pela imagem) deixo um texto que traduz o meu pensamento final sobre o ex-funcionário.
"A questão de sermos usados por um treinador ou jogador não é grave.
No futebol como na vida o que conta é avaliar as expectativas de cada uma das partes.
Não me importo de ser “usado” se tenho consciência disso e também me aproveito dessa relação (profissional, pessoal, etc).
Nesse caso há um toma lá dá cá.
Eu senti isso com o Mourinho. Cada minuto que cá esteve era idolatrado mas senti sempre que os projectos (dele e do FCP) eram diferentes embora tivessem conjunturalmente o mesmo objectivo. Quando há a cena da camisola do Rui Jorge ele diz várias vezes que o lugar dele não era o futebol português. Todos nós sabíamos que tínhamos que o usar como ele nos usou a nós.
A forma como saiu, o amuo é mais uma expressão narcisista de querer ter os holofotes para ele voltados. Ou aparece aos saltos para ser filmado ou se esconde para todos notarem a falta. Não há meio-termo.
O Mourinho, como o Viilas-Boas percebem que a parte comunicacional vale mais do que a componente táctica. As guerras que compram, aquilo que dizem são trabalho para adeptos e equipa.
A forma de lá chegar é diferente. Um é actor e o outro um ilusionista.
Essa é a diferença. O discurso do Mourinho centra nele os focos utilizando para isso o expediente de “ser ele a dar o peito às balas” para que os jogadores se focalizem só no que interessa.
Nada mais falso. Quando o faz é para que nunca fiquem dúvidas quem é o responsável pelo maior quinhão de sucesso. É o Chelsea do Special One, o Inter de Mourinho e o Madrid de Mou. Nas conferências de imprensa utiliza estatísticas pessoais em vez de pôr no palco as Estatisticas do clube que representa.
“Eu já ganhei ao Lyon, eu nunca perdi em casa, eu já eliminei o Barcelona”.
Está intrínseco que o trabalho é um imenso espelho individual. Ele trabalha nas equipas mas para o mundo parece que as equipas é que se servem DELE para ganhar.
No fim do primeiro ano do Inter o AVB quer mais e o Mourinho dá-lhe com os pés. Nunca saberemos o que se passou mas tenho para mim, agora mais do que nunca, que deu molho e do grosso coisa que Mourinho nunca conseguiu esconder pelo silêncio e o AVB desvalorizou pela “humildade”.
Não acredito que nesse momento o AVB tenha gizado uma vendetta pessoal anti-Mourinho. Não há nada que lhe tolde o raciocínio.
Seguiu a sua carreira com a mesma noção de Mourinho da importância da vertente comunicacional mas com uma abordagem diferente porque ele ainda era um trapezista sem rede. Não tinha curriculum para tudo centrar nele.
A chegada ao Porto deve ao discurso moderno, ao ser filho da casa, à história Robson, ao sucesso do Mourinho e à qualidade na Académica.
Sabe que não tem rede e sabe a importância do discurso. É mais discreto e observador que o Mourinho e como normalmente quem menos fala mais observa sabe perfeitamente o que os portistas querem. E quando digo portistas incluo a estrutura, o Pinto da Costa.
a) O discurso de portista é óbvio. Isso já tínhamos tido com Oliveira o que ajuda mas não chega para galvanizar. Foi utilizado como uma das coordenadas.
b) As piadas ao Benfica e o espírito guerrilheiro outro. Ele sabia que era disso que gostávamos.
As guerras do Mourinho eram colectivas mas ele afinou a coisa para um perfil de piada de adepto. Depois do estilo sóbrio e coerente de 4 anos de JF esse tipo de abordagem era água no deserto. Mobilizava o grupo de trabalho e encantava os adeptos. Encantar é mesmo a palavra.
c) Mas há um ponto crucial em toda essa estratégia. Mourinho. Não como uma vendetta dele mas como uma percepção de uma vendetta nossa.
Basta ir ao tópico da Champions para perceber que ficou um azedume enorme em toda a nação portista com o Mourinho. Por ter saído da forma como saiu, por não festejar, por ser arrogante, por achar que o Porto ganhou por Ele e que sem ele nada daquilo seria possível.
Ficaram resquícios disso em grande parte da nação portista. Ele que é um sobredotado com a capacidade de em meia dúzia de abordagens encantar o Robson a tal ponto de lhe patrocinar a carreira percebe essa pedra de toque e usa-a de forma a que a rede que lhe fazia jeito se transformasse numa cama elástica.
O Mourinho não festeja com os adeptos? Eu festejo porque sou um deles.
O Mourinho era um tipo ambicioso e via o porto como trampolim? Para mim é a meta porque esta é a minha cadeira de sonho.
O Mourinho evidencia o seu talento táctico como base do sucesso? Eu escondo-o dizendo que o que importa são os jogadores.
O Mourinho acha-se especial? Pois bem então eu sou banal.
O Mourinho está no Real Madrid e diz que quer treinar a selecção por umas semanas? A mim não me interessa porque só penso nisto. Na minha cadeira.
O Mourinho planeia uma carreira de 30 anos? Eu só quero 15 porque o futebol é mais do que ambição pessoal. É sociologia.
Italia, Espanha, Inglaterra? Eu é Japão, Chile e Argentina.
Ele fez-nos crer que o que fizemos de épico sobre os comandos de um vilão e que parecia irrepetível podia ser realizado desta vez pelo herói que demonstraria a todos que o que importa é o PORTO e não o génio de um treinador.
Fez tudo isto porque é um fabuloso treinador e que percebe a importância do psicológico, do comunicacional, do elan na vitória.
Enquanto o Mourinho se julga uma mega-onda ele envolve todos (como diz agora no Chelsea) num gigantesco tsunami dizendo o que é preciso, quando é preciso.
Autenticidade ZERO. Discurso comunicacional 1 MILHÃO.
É de tal forma eficaz que tem o mesmo efeito do Mourinho mas faz parecer que aquilo não é estratégia em prol dum objectivo.
Não é estratégia, é honestidade, autenticidade e paixão.
Faz com que todos se sintam como guerrilheiros à boa maneira de Braveheart. Vendou-nos os olhos, anestesiou o raciocínio.
Manipulação de massas tocando nos pontos que tinha que tocar. Todos a acreditar no herói. O Beto a chorar no balneário. Brilhante.
O PdC a pôr as mãos no fogo por ele mesmo sabendo que 15M não eram inalcançáveis. A ilusão da raposa velha. A ilusão de todos.
As qualidades tácticas estão lá como estão em dezenas de treinadores.
Esta capacidade comunicacional é única porque não parece premeditada ao contrário do Mentor.
Estamos num mundo em que precisamos de acreditar em algo. De nos emocionar por algo. De ter um líder que nos inspire e que seja um de nós.
Que seja humilde.
Ele sabe disso e deu-nos o que queríamos para chegar onde queria.
Pode ser contraditório mas sem esta táctica poderíamos não ter ganho o que ganhamos da forma como ganhamos.
Genial treinador.
Devíamos estar gratos?
Nem por sombras. É um traidor da pior espécie.
Era como se um dos capitães do 25 de Abril na realidade estivesse feito com a PIDE.
A revolução era feita na mesma mas o idealismo e a crença no próximo eram arrebentados."
DrGero (22-06-2011 19:39:09)

2 Reviews:
Este assunto ainda e muito doloroso mas, esta analise e brilhante.
Subscrevo cada palavra.
Dragão de Ouro!
Enviar um comentário